O monólogo de G.M.

     Eis aqui mais um desabafo insistentemente esquálido e desconexo de algo necessariamente inexistente. Eis mais um registro de fatos devaneantes e amores platônicos por desconhecidos. Eis aqui uma lírica existência falseante e um pouco de confusão inventada para pessoas que nunca trocaram olhares comigo ou sequer sabem meu nome do meio.
     Lutei para que ela não saísse de mim como se algum dia tivesse habitado meus mais íntimos pensamentos. Queria que ficasse por lá, ainda que soubesse que os nossos na verdade são do mundo, e que o mundo jamais devolve o que um dia foi nosso. Aliás, o mundo é demasiado injusto para importar-se com o que sentimos ou como dói a saudade.
     Sei apenas que a vi caminhando compassada e calmamente por um jardim enquanto eu passava de carro. Tirei calmamente o pé do acelerador para deleitar-me com sua delicadeza natural, o sol acariciando seu rosto e seu vestido florido dançando ao vento. Quase perdi-me na correnteza de seus olhos negros que mal importavam-se com minha presença. Brequei. Brequei o carro. A vida. O pensamento. A existência. Enquanto curvava o pescoço, meu coração curvava-se pela mais delirante febre clamando por uma atenção que não lhe foi concedida. Ela passou por mim sem sequer notar o buquê de rosas azuis que minhas mãos sonhavam em oferecê-la. E se foi.
     Mania essa minha de inventar uma existência para almas que já têm a sua. Devem existir por aí tantas almas inanimadas clamando por existir. Apenas existir. E eu estou aqui, tentando adivinhar o que a garota dos cabelos escorridos faz da vida ou pensa antes de dormir. Talvez essa seja apenas uma desculpa para esboçar uma personalidade ideal em meus padrões apaixonantes a uma beleza física que dita tudo o que meus sonhos sempre quiseram ter.
     Eu, G.M., dava mais um de meus passeios sem rumo pela cidade desinteressante em que vivia desde que me entendo por gente. Eu tinha tudo. Um apartamento bagunçado com uma falsa aparência de independência masculina. Um emprego que deveria esboçar o mínimo sorriso em um rosto que apenas fazia perguntas sem respostas. Um conversível vermelho que podia passar a falsa sensação de viver em uma década em que tudo era mais descolado. E uma barba por fazer que visionava um homem mais velho do que apontavam os quatro números em minha identidade. Menos o amor.
     Até ali.
     Olhava para dentro de minh'alma pelo espelho retrovisor. Via apenas a mim mesmo nos meus ataques egoístas de amor-próprio. Sorria daquele modo que as meninas deliravam ao ver-me passar. Acenava aos amigos, aos desconhecidos, aos inexistentes. Até que a vi. Como já dito, seu vestido esvoaçava em volta de seu corpo, vez ou outra mostrando curvas delineadas pelas quais meus olhos derraparam descaradamente. As pernas falsearam e meu pé saiu do acelerador. Eu já disse isso? Talvez. Mas em minha mente isso é tão nítido e importante... Poderia dizer isso ao mundo, aos gritos, os braços abertos. "Ei, eu vi a mulher que amo, não sei seu nome, número de telefone ou sequer seu seriado preferido, mas sei que gosta de vestidos floridos e dias ensolarados!"
     Será que ouve Beatles? Deleita-se em tardes frias com um livro ou um CD? Ou apenas adormece, dando descanso aos seus belos olhos, tão negros quanto a noite, tão iluminados quanto o dia... Será que chora por amor? Ou é um amor pelo qual prantos desmedidos são derramados todas as noites? Se não era, agora é. Perdi-a de vista, mas meu coração não. Fica apontando-me sua existência dia e noite, a cada sístole e diástole grita seu nome, sem nem o saber. Pede sua presença, para que valseie com seu coração, os dois formando uma dupla apaixonante e apaixonada.
     Seu caminhar despretensioso e sua inocência inócua ainda habitam minha mente. A mulher perfeita esboçada em meus íntimos luta para fazer-me feliz com sua existência pré-inventada. E meu coração, ah, meu coração. Ainda grita seu nome e pede sua presença a todo momento. Eu a quero. Eu a terei. Quando? Não sei. E essa esqualidez interna julga-me, gritando em meus ouvidos que não sou bom o bastante para tê-la por perto. Que o destino não quer.
     E o que é o destino para dizer-me se a terei? Sou amigo do acaso, peço sua ajuda todo instante. Passeio pela cidade, o rádio desligado, atento a todo sinal de inocência inócua da garota sem-nome. Olho para os lados, peço a Deus, nosso Pai, que leve seu caminho até o meu. Parece que minhas preces não são ouvidas. Lá se vão rios de dinheiro com gasolina e nada de minha menina aparecer.
     Escuridão interna e noturna, sonho com a garota todas as noites, sem exceção. Meu corpo clama pelo dela, meu suor quer ser seu aquecedor de noites frias. E por onde andará agora? O que estará fazendo?  Pensará em alguém? Sonhará comigo? Por favor! Por favor...


Vitória.

Juramento



E ter tudo o que alguém pode querer, porém incompleta e fraca. Ah, o amor. Quem me dera escrever poesias que fizessem o tempo voltar, que fizessem você nos meus braços novamente. Vejo tanta poesia no teu jeito, na tua voz e no teu olhar, que torna-se impossível produzir em palavras para que você também saiba.

Sou tão sensível que não dá pra ver e não se apaixonar. É o que você diz, ao menos. Mas, quem dera você visse, apaixonasse, pegasse, guardasse, bordasse na pele e não esquecesse mais. Quem dera fosse eterno e você gritasse para quem quisesse ouvir “Minha! Minha e de mais ninguém”.

E os teus cachinhos fechadinhos, que só não aumentam de tamanho porque você não deixa, eles podiam estar nos meus dedos de novo. Juro, daquele jeito só nosso, eu nunca mais iria desperdiçar essa chance. Queria teu cheiro inebriante, uma lembrança.

Um sinal. Uma piscadela, um toque despretensioso, uma música, uma carta. Apenas um sinal de que você não se esqueceu e de que sente falta. Apenas uma demonstração de que eu fui alguém e que sempre terei um lugar dentro de você, seja lá onde for.

Mas e nem assim você quis tornar isso poético ou inesquecível. O olhar, o jeito, teu charme, outros olhos apaixonados já admiram, aqueles que você também demonstra admirar. E a poesia que você tanto amava? E eu não a consigo enxergar naqueles olhos. Diga-me, moreno, o que você viu naqueles olhos? Naquele jeito? Naquelas palavras? Se não foi amor, já não sei o que foi.

Ah, faz falta o tilintar do teu relógio ignorado, tentando chamar atenção aos tiques e taques. Faz falta o frio na barriga, borboleteando o estômago e deixando a face branca de tanto amor. O suor repentino. Os sussurros ao pé do ouvido. Vê se volta, manda um sinal ou me dá qualquer motivo pra continuar vendo poesia onde não tem. Dá sinal pro amor não morrer, pra primavera florescer e pra que em cada canto eu veja um lado bom.

Vitória

"Quem sabe a vida é não sonhar?"



Se é para ser sobre solércia, que o seja de uma vez. Buscarei dar sempre o melhor de mim, para que conquiste a melhor forma de conhecimento possível, a sabedoria. Peço a qualquer divindade que me faça algo diferente, não infindável fisicamente, mas que permaneça em muitas mentes por muito tempo. Tantas inspirações, tantas ideias, poucas formas de mostrar ao mundo. Quanto mais progresso, mais saudades do que já foi. Quanto mais pessoas conhecidas, maior é a dor ao ver que aqueles que eram tão iguais, agora não passam de meros estranhos. Forçam a intimidade de outrora, mas não é a mesma coisa. E quanto mais longe se vai, maior é a vontade de olhar para trás e relembrar os bons momentos.A cada dia mais pessoas nascem, tanta gente morre! "Aqueles que querem tua queda estarão ainda mais vorazes procurando um jeito de te jogar por terra e por meio disso fazerem sua própria vitória." Penso nisso todos os dias e cada vez que minha ficha cai, percebo o quão impiedoso e injusto é o mundo. Sei que nem sempre aqueles que me confortam estarão por perto para ceder um ombro amigo. Dou-me conta de que só tenho a mim mesma e assim será eternamente. Não se sabe do pensamento alheio, só se sabe do próprio pensamento. É necessário aprender a ser frio e impiedoso assim como o mundo é. Necessário entender que as pessoas não estarão pensando no seu bem a não ser que isso resulte no bem delas. E a infância fica para trás, a falsa ilusão de que o amor e a compreensão existem ficam junto com a infância e nos transmudam em seres sem brilhos nos olhos e sonhos impossíveis. E tudo o que sobra é tão gélido e sem emoção, tão sem explicação e momentâneo... E eu, aqui, tentando entender o motivo de tudo ser tão findável e falso.

Vitória.

Café e mirra.



Era como tomar o mais forte dos calmantes, depois de uma briga por um motivo bobo. Era como passar a tarde sentada numa cafeteria de esquina, tomando capuccino e esboçando poesias num guardanapo. Ou então tomar banho de chuva, depois de assistir ao seu filme preferido.
Aliás, tinha cheiro de café. Café e mirra, num só ambiente, misturados com uma eficiência inebriante. Chegaria a ser indescritível, se houvesse algo indescritível no mundo.
Era como cair. Tropeçar sem ver e mergulhar num poço sem fim. Elevar os braços para dar um toque poético no fato, e fechar os olhos para apenas sentir. E conseguir. Toda a serenidade possível presente numa única face, numa única feição. Todo o amor estampado num único gesto e sem outras intenções.
Deitar-se sobre a água gélida, sem eriçar os pêlos e apenas sorrir. Deixar lentamente de respirar, e permitir-se ir até as profundezas quase azuis daquele lugar tão único.
Assim era a morte.

Vitória Tavares

Têmporas


É uma situação efetivamente bela, e passa o dever de trazer diversas coisas à lembrança. Ninguém vive só com a própria linha de sombra, vive também com sua linha de luz. A luz se transforma em sombra, a sombra se transforma em luz.
Eis que ainda somos pessoas novas; não ainda uma só; mas já somos uma só, embora sejamos duas. Eu, porém, pareço triste, talvez esteja somente séria e comovida.
Cintila um brilhante no peito dele e uma flor branca, em meus cabelos, mas são brilhos desiguais. Resplende também o vinho. Vinho – este sim! Seja o vinho vida em outro homem; o homem – é amor – irradiai, mutuamente, a vossa vida.
Quantas palavras, quantos corações. “Acompanhar-vos-emos, iremos convosco pelos pórticos e depois, pelas ruas, andaremos juntos alguns passos, milhentos passos, com entusiasmo, sorriso sincero, até aqui, até aqui.” Juntos.
Mas aparecerão, depois, os veículos, a rua será um obstáculo, mas subiremos no automóvel – devemos, afinal, ficar sozinhos. Voltemo-nos para as estrelas, para o calor, para os sentimentos. Ah, como o homem deseja ser amado, como queremos estar perto um do outro.
Árvores, árvores, troncos altos e esguios, que escondem o cimo aos olhares e roubam dos olhos a lua distante, trezentos mil quilômetros, e são dois. E a lua se transforma num tambor que rufa no fundo dos olhos e dos corações.
O amor. Vibra o amor nas têmporas. O amor na inteligência se transmuda em pensamento e vontade: vontade minha de ser dele. Vontade dele de ser meu.
Entranho, porém necessário afastar-se, depois, um do outro. Porque o homem não consegue permanecer no outro para todo o sempre. E o homem não é tudo.
Como alcançá-lo?
Como ficar nele para sempre?
Como alcançar-me?
Como permanecer para sempre em mim?
Como obtê-lo, se o homem não consegue ficar no outro, se o homem – não é tudo?
O corpo... O pensamento corre pelo corpo, mas não encontra nele a satisfação. E também, para o amor, o corpo não é mais do que um meio. Procuremos um apoio em nossos corpos, enquanto existem, procuremos apoio para o nosso amor.

Vitória Tavares