sábado, junho 22, 2013

Delirante

   Quis voar o mais alto possível para que a queda fosse impossível de se cogitar. Voar de modo distante, para que os gritos e clamores não pudessem ser ouvidos. Voar livremente, para que as lembranças e mágoas não tomassem seu campo de visão e a fizessem querer descer. Ah, o querer. Ela o tinha de sobra. O anseio do voo era irreparável, inadiável, delirante.
   As repreensões soavam como pesados grilhões roçando-lhe a carne viva do tornozelo. Doía a prisão, a repressão, a omissão. Doía o pesar da respiração, as palavras ditas sem pensar, os gritos de liberdade abafados pelo mundo. A dor da falta de poder era pungente, lancinante, delirante.
   O mundo ilusório. Faz-nos vibrar as têmporas de amor, habitar com borboletas as entranhas, valorizar o patético. Faz-nos lutar diariamente por coisas que, se pararmos para pensar, têm a importância duvidosa. Faz-nos priorizar o inimaginável, renascer como fênix, viver blasfêmias. A decepção para com o mundo é inevitável, penosa, delirante.
   Carta de alforria. A felicidade proporcionada pela liberdade fê-la sorrir. Doce como chocolate quente nas manhãs de natal. Doce como o abraço sincero após a tempestade. Doce como um arco-íris no final de um túnel escuro. Doce como a sensação de vencer. Permitir-se viver por si só e apenas consigo era perfeito, inacreditável, delirante!
   Mas era o mundo e como tal, chicoteou-lhe a face após a bonança. Amargo como discussão no fim da noite. Amargo como querer e não poder. Amargo como sentir-se só e estar certo. Amargo como morrer. Ter o chão retirado dos pés após breve sensação de liberdade era taciturno, terrível. Delirante.

Vitória

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