quarta-feira, dezembro 28, 2016

Eu te odeio mais do que eu já odiei qualquer coisa e pessoa que já passou pela minha vida

Esse não é um texto de amor. Na verdade, esse texto é sobre o ódio que estou sentindo do amor. Sobre todas as feridas que jazem abertas em mim e que ardem pungentemente, me fazendo urrar um grito ensurdecedor, porém mudo. De nada adianta.
Eu odeio sua risada forçada. Eu nunca sei quando você achou algo engraçado, de fato. Você nunca é você mesmo com as pessoas e eu nem sei se conheço seu verdadeiro eu. Eu odeio essa falsidade gritada e teatral que você arquitetou pra se mostrar.
Eu odeio você contando vantagem na frente de todo mundo para parecer melhor que os outros. Eu odeio o quão engraçado você é e o quanto eu preciso me segurar pra não rir das suas piadas, afinal, eu estou bravíssima com você.
Eu odeio você achar que está tudo bem e falar da sua vida como se eu fosse uma amiga qualquer. Eu odeio você não ter se perdido em mim tal qual os outros se perderam. Eu odeio você não me achar fascinante.
Eu odeio a forma como você estragou todas as musicas pra mim. Até as que não são românticas. Eu odeio não conseguir mais ouvir sertanejo sem chorar, odeio ouvir os rocks que eu tanto amava e lembrar de você dizendo que nosso gosto musical era idêntico.
Odeio todas as vezes que você me disse que nós éramos iguais, porque dessa forma eu acabo me odiando um pouquinho também. Mas isso nos faz diferentes. Saber que eu jamais passaria por alguém como eu e não poria sentimentos em jogo. Saber que eu jamais seria capaz de mentir tanto para as pessoas que eu mais amo e acabar tratando como lixo as que me amam também.
Mas eu te odeio.
Eu odeio tudo o que você me fez e em que me transformou. Odeio mais ainda saber que a culpa disso não é nem um pouco sua e totalmente minha.

Eu odeio não ter sido capaz de te fazer ficar.

Vitória.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Lost

Aqui jaz o momento voraz em que eu quis te ligar para falar de tudo o que vem acontecendo - apenas na minha cabeça. Eu sei que pra você tá tudo bem, que eu não mudei, que a sua vida anda agitada e que você tem se divertido muito. Eu sei também que é exatamente o mesmo que você pensa sobre mim, visto que eu jamais teria coragem de abrir a boca pra te contar do turbilhão de tristeza que me assolou na última semana.
Eu vi o mundo rodar trinta vezes antes de escrever isso aqui.
E fazia um tempão que eu não queria escrever sobre nada, afinal, tudo estava indo muito bem.
Mas parece que a vida decidiu brincar mais um pouco comigo. Quando eu finalmente me curei do maior baque da minha vida, você apareceu. Não é fácil pra mim, gostar das pessoas. Eu, que sou desapegada até o último fio de cabelo, vi minha muralha pessoal desabando por sua causa.
Vamos lá, eu te explico.
Acontece que da última vez que nos víamos eu estava confusa porque não conseguia parar de pensar em você há dias. Nem por um minuto. Eu achei que seria algo momentâneo, que olhar um pouco pro teu olho de esperança faria todo esse desconforto passar.
O problema é que quando você me deu um beijo na bochecha pra se despedir, eu vi que queria bem mais que só amizade. E, enquanto eu olhava apaixonada e sorridente para a porta vendo você partir no meio das suas corriqueiras palhaçadas, eu percebi que estava perdida. Toda errada. Desamparada.
E aquela coisa toda de não parar de pensar em você foi aumentando...
Eu tava numa cidade maravilhosa em um feriado só pra mim. Choveu. E eu só pensava em como você deveria estar curtindo a vida e dando aquela gargalhada estranha que você dá. Eu ficava olhando o celular de dois em dois minutos, porque vai que você lembrou de mim em algum momento. Mas não lembrou.
E foi aí que eu bebi o mundo todo pra tentar fugir só um pouquinho dessa sua presença constante na minha cabeça. Deu errado. Eu falei de ti pra deus e o mundo enquanto enfrentava o maior porre da história. Eu tentei te achar em outra boca, em outra garrafa, em outra cama. Nada funcionou. Mas calma, podia ser só outro momento de fragilidade.
Eu tava sentada e feliz porque não te via há uma semana. Eu ouvi tua voz de fundo e ali teve coisa nova: eu nunca tinha perdido o ar por causa de ninguém! Senti meu rosto ficar quente e o que eu tava falando me sumiu da memória. Eu não sabia respirar? Tinha esquecido. Você tava sorridente, me chamou por apelido e eu só consegui murmurar um "É.... Oi." Fui pro banheiro chorar.
Chorei porque sabia que, apesar de ser toda essa luz matinal, você é egoísta, imaturo e vingativo. Chorei porque eu sei que tô perdida. Chorei porque eu não conseguia mais ouvir música romântica e precisei ouvir funk o dia todo pra não perder o fio da meada. Chorei porque precisava sorrir na tua frente. Chorei porque pra ti nada disso é real.
E eu podia te ligar agora e obedecer esse impulso maluco que tá gritando em mim. Podia te falar que não quero ser nada mostrável na tua vida. Só queria ir até o fundo em você. Mas você provavelmente vai rir, perguntar se bebi de novo ou achar que tô brincando. Vai me achar boba, vai perceber que eu tô perdidamente doida por tua causa e vai fugir.
Sigo calculadamente fingindo que tá tudo bem, até que fique tudo bem de fato. Até que as borboletas em meu estômago se acalmem, até que o ar volte para meus pulmões. Até que eu ache meu caminho. Sigo fingindo enquanto meu amor próprio vagueia por lugares desconhecidos, desgarrado de mim há um tempo, fazendo-me passar por todo esse furor...

P.s.: Este é meu primeiro escrito pra você.

Vitória

quinta-feira, setembro 22, 2016

Desabafo desesperado que não faz o menor sentido mas que eu precisava deixar aqui


E eu, que sempre quis tanto um tempo com você pra te falar tudo o que estava em mim; que sempre quis jogar na sua cara toda a dor que você deixou quando foi embora; que esperei anos pra poder te ver sem querer chorar... Eu me vi ali, contigo, no carro de sempre, na rua de sempre, admirando teu sorriso como sempre. E no (re)começo de tudo eu estava me esforçando tanto pra não demonstrar que tu havia me machucado... agora eu tava ali, como se estivesse completamente curada do furacão que passou quando você se foi de nós.
Eu, que sempre quis estar próxima de você e saber da sua vida, que sempre quis ouvir de você que queria saber do meu dia, que nunca tinha recebido um conselho teu. Eu olhei pro lado e vi tudo o que eu sempre quis ver de você, ali, totalmente comigo e por mim.
Eu esperei uma vida para estar ali hoje. Inclusive, sabendo que ia te ver de noite, revivi as borboletas do meu estômago as 6 da matina. Não conseguia pensar em mais nada o dia todo.
Eu tava ali. Com você.
E eu não consigo parar de pensar no quanto isso pode ser mentira, no quanto eu posso estar me enganando de novo... Mas a vida passou tão depressa e eu não consigo fingir que não me sinto a garota mais feliz do universo quando você me olha e sorri daquele jeito. Eu te beijei por quinze minutos ininterruptos e parecia que tudo em volta era amistoso e tranquilo. Eu não queria sair nunca dali, pra mais nada.
E eu comecei a lembrar de tudo o que foi bom.
De quando eu tava indo embora um dia e você me puxou sorrindo e pedindo pra eu ficar. De quando chovia sem parar do lado de fora mas nós estávamos tranquilos do lado de dentro. De quando você fez o maior caminho do mundo pra poder me ver no meu aniversário. De quando você estava morrendo de sono e ficou olhando pra mim antes de dormir. De tudo. Seu olhar era como casa pra mim. E sabe? Eu descobri que ainda é.
Já faz trinta e seis horas que te vi e ainda não consigo parar de sorrir quando lembro disso.
A tempestade passou.
Vitória 

quarta-feira, agosto 31, 2016

Interrogatório

Tem sido cada vez mais difícil achar o trajeto de uma caminhada da qual desconheço o rumo. Tem sido cansativo, tem tirado minhas forças e minha felicidade. Caminho, é fato, mas caminho pesarosamente. Minha cabeça tornou-se o maior peso que eu poderia carregar. Minha insatisfação é meu juiz mais esnobe. Eu sou meu empecilho.
De que vale o poder? Social, aquisitivo, pessoal... De que vale o possuir, o mostrar? Qual será a sensação de ter pleno domínio e controle, de saber o que se quer para todo o sempre?
Grito tanto com os olhos, pois já não tenho voz. Tira-me dessa jornada dolorosa....
Meus maiores medos tornaram-se reais e estão a encarar-me, juntamente ao pesar, as mágoas, o futuro. Todos gritam para que eu desista e eu chego cada vez mais perto de obedecer. Seria exagero? Seria demais pensar-me guiada por tudo que há de ruim e sem achar solução alguma que acalente meu coração desprevenido?
Não me aceito, não faço por onde aceitar-me. Para quê?

Desconheço quem sou e quem me tornei.

segunda-feira, setembro 07, 2015

Independência ou...?

   O barulho dos trovões anuncia uma chuva insana e furiosa que está por vir. Seu prefácio, porém, são alguns pingos gélidos e fracos, que estão tocando as folhas das árvores e aos poucos se vão, rumo a um ciclo que todos nós já conhecemos. A janela fica, aos poucos, salpicada de gotas perdidas que correm rumo ao parapeito da janela. E eu. Sei lá eu.
   Mais uma vez, não sei o que fazer. Não me encontrei, não me satisfiz e não pude reconhecer ainda a essência que eu tanto procuro. Eu consegui fazer tudo o que queria e, no entanto, arde um vazio insistente dentro de mim. Ora, não é para isso que milhões de pessoas lutam diariamente? Para realizar seus sonhos, pouco a pouco e, assim, alcançarem a felicidade? Eu não cheguei ao fim dos meus sonhos mas estou em um ponto perfeito para o sonho que planejei. Porém, algo me falta. Não é amor, pois o tenho da forma que quis e, embora passe por altos e baixos (como todo amor real), ainda o prezo. Não é amizade, pois tenho pingadas afeições que, juntas, se completam. Não é inteligência. Não é caráter. Não é posse. Talvez seja liberdade. Que sei sobre liberdade, todavia? Sei que a tenho mascarada e a chamo de minha com um orgulho patético.
   Rendo-me todos os dias à obrigações que me falseiam o esforço, que me ludibriam com a recompensa periódica. Mas eu as cumpro com tanto pesar! Espero desesperadamente por momentos que julgo serem só meus e, quando chegam, me deixam entediada devido a incerteza. Nunca tenho ciência completa de que estou sendo útil (não para o mundo, mas para mim mesma) e insisto em bradar aos ventos que sou. Que audácia!
   Todos os dias eu busco uma felicidade forçada, um sorriso atuado, o encaixe frustrado em padrões que eu não sei nem se são, de fato, meus. E o vazio permanece.
   Que eu possa, futuramente, achar a peça faltante do quebra-cabeças. Suplico a seja lá quem for. Que eu ache o conforto espiritual, material e referente à liberdade que tanto me entristece. Que eu descanse, livre e liberta, enfim.

Vitória.

domingo, abril 26, 2015

Cais

   Acontece que, quando eu olhava fundo nos teus olhos, eu enxergava o amor. Eu sentia que aquilo tudo era puro e verdadeiro, único e leal, paciente e singular. Eu jamais me preocupei em fazer algum tipo pro teu julgamento ou te deixar curioso sobre o que eu era. Eu realmente senti que podia ser o que eu sabia ser e podia fazer milhões de esforços para te fazer igual. Eu vi a sinceridade ali, naquele brilho intenso e esverdeado nas tardes chuvosas. E choveu. Eu pude sentir os braços latejando, tamanha a força com a qual eu fechei as mãos. Os pingos gélidos que me acometeram os ombros, os olhos e os cabelos. O céu que escorregava numa rapidez exorbitante e os pés dormentes de tanto caminhar sem rumo. Fecharam os teus olhos porque já não aguentavam encarar os meus. Ao abrirem, já fitavam o teto. Ficaram longe, me mantiveram longe e eu tornei-me pó. Teus olhos olharam fundo nos meus para me afastar de vez. Havia amor refletido nos teus olhos... Mas ele vinha dos meus.

Vitória.
   Havia muito de você em mim e eu passei um tempo enorme selecionando tudo isso para jogar fora. Mandei o "você" em mim pra longe, evitei, reneguei. Deixei de alisar sua pele nua com a ponta dos dedos para agora seguir um rumo oposto e sombrio. Eu não sei por que eu falei disso agora e nem o que eu realmente quero dizer. Mas eu disse. Que bom.

terça-feira, abril 21, 2015

Dezesseis quartos, quatro andares

   Quando senti os primeiros pingos gélidos tocarem-me a face, eu soube o motivo de estarmos ali e instantaneamente senti que aconteceria. Finalmente. Eu senti seu braço apoiado na minha coxa e todos os pelos do meu corpo arrepiaram-se imediatamente. Suas veias, sempre dilatadas, imploravam meu toque e eu cedi como sempre cedia quando o assunto era você. Sua pele dourada contrastou com a minha e nossos olhos se cruzaram. Os meus, escuros como o céu que pairava sobre nós. Os seus, esverdeados como a esperança que me acometeu todos esses anos. E nós fizemos chover.
   Não entrarei nos méritos que a descrição hiperbólica poderia me proporcionar. Tudo o que chegou a acontecer, o silêncio, o calor, o suor e as expressões estarão conosco pelo resto do tempo. Não haverá repetições ou insinuações delas. Todos os arrepios, a explosão de sensações, a visão da chuva na janela e a minha respiração no vidro. Tudo ficará em nossas memórias e apenas nelas. Para nunca mais, ninguém. Fica aqui apenas o registro para que eu nunca esqueça de que este sonho aconteceu. O erro habitual e favorito. Eterno.

Vitória.

segunda-feira, março 16, 2015

Greitai

   Rápido, indolor. O turbilhão de frases e lembranças habitam um palácio metafórico onde um andar é inteiramente feito para você. Oitocentos e oito quartos divididos em momentos maravilhosos e toda a dor que você causou. Nove, e esse último será para o presente e para o curto futuro de você em mim. Diferentes, dispostos, atrativos. Você está aí, em algum lugar. Quero aproximação mas o bom senso nos repele. Até quando?
   Você poderia falar mais alto. Não entendo suas palavras, mas sei que ouço sua voz. 

Vitória.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

1100110

   Creio que há beleza nessa paisagem apagada. Creio apenas, visto que tenho todo o receio e temor de ser a única a admirá-la. Mas o verde musgo das plantas - que, em dias normais, são de um verde vivo - me inspiram em demasia. E, não bastasse toda essa morbidez das árvores, tem as flores. Gosto se são brancas, mas também acho charmoso se são rosas, roxas ou azuis.A neblina me lembra um episódio de Horror House, aquele em que a menina parece toda ensanguentada devorando um carneiro. Quase me esqueço do frio, que me deixa triste de um jeito tão feliz e bonito. Coloquei Regina Spektor para tocar. Ela sabe bem o quão agoniante é se ver sendo salvo desnecessariamente, visto que se é o herói da história. Tentei ler Bukowski, mas não gosto de cutucar minha ninfomania em locais públicos, pois me parece insano. Sai o lascivo e entra o depressivo. Melhor encobrir. Suspiro fundo. Olho a janela. Estou certa de que há beleza nessa paisagem apagada.

Vitória

sábado, janeiro 24, 2015

Sobre raízes e asas

"Ah, as pessoas que vão… Deixem-nas ir. Não significa que elas não amem, não sintam saudades, não se importem – apenas o coração delas é grande demais, e elas precisam sempre estar em expansão. Quando enclausuradas, sofrem muito. Não cabem em si – movimento é a palavra de suas vidas. Alguns acham que esse tipo de pessoa é indecisa, inquieta e até frustrada, pois parecem estar sempre em busca de respostas. Não. Na verdade, pessoas que vão não se importam tanto com as respostas – seu combustível é feito pelas perguntas. Questionam o tempo todo, pensam o tempo todo, observam o tempo todo. Encantam-se pela quantidade de maravilhas que o mundo pode oferecer, seja em uma cidade da moda como Paris ou num boteco abandonado de esquina."

sexta-feira, novembro 14, 2014

   Entregou-se como quem coloca apenas os pés na água, por medo do frio. Quis fechar os olhos e se deixar levar pela música, mas não o fez. Enrijeceu os músculos, a tensão acometendo-a em cheio. Tudo a impediu de dedicar-se integralmente. Como quem sabe que o fogo pode esquentar, mas também pode queimar; que a água mata a sede mas também pode afogar. Não foi feliz, não enlouqueceu e jamais deu-se ao luxo de sorrir verdadeiramente. Enraizou-se no medo e não pode viver. Mas depois de tudo ela percebeu: nada a aterrorizava mais do que ser solitária.

domingo, outubro 05, 2014

Verdade pungente

   Escrevo por escrever, de forma espontânea e sem maiores intenções. Às vezes as interrogações alvejam meus pensamentos e tudo o que anseio é existir (no mais puro sentido que o verbo possa admitir). Hoje, em um dia perturbadoramente nublado, eu escrevo por não ter sido integralmente feliz. Por ter a vontade e o devaneio de um amor real, cativante e com uma história de marejar o olhar. Falta um pedacinho de qualquer coisa em mim, visto que não tenho dedicatórias decentes nos meus livros, nem cartas dignas de serem lidas várias vezes, nem fotos reveladas com carinho. Eu não vivi um amor por inteiro e ainda que eu seja muito jovem, este fato me incomoda horrores. Quem entende? Hoje eu me peguei com vontade de ler um conto mas com medo de tudo aquilo que contos me fazem sentir. Sem querer encarar questionamentos e verdades que farão com que eu me depare com uma existência deveras vazia: a minha. E só eu saberei o quão doloroso será encarar tal verdade e reparar que, por não ter vivido tantos amores para viver só comigo mesma, não gosto tanto assim - nem de mim e nem dos outros. Eu não me deixei levar e agora nada faz um sentido real (e nem irreal, pois quem me dera). A poesia da vida só tocou meu íntimo na depressão, nunca no sorriso. "À flor da pele" nunca foi uma expressão que me descreveu.

Vitória

sábado, setembro 27, 2014

Perdição

   Eu me perdi no marrom esverdeado dos teus olhos curiosos naquela tarde ensolarada. Todas aquelas interrogações e aquele brilho que só existia quando o assunto era nós dois não me saem da cabeça. Eu te pedi para tirar os óculos escuros porque só assim eu podia lembrar da nossa origem. Você se olhou no espelho e comentou que o que mais gostava em si mesmo era seu olhar. Eu também.
   Eu me perdi no teu sorriso despreocupado que aparecia a cada besteira que falávamos. O modo como teu sorriso combinava com a tua expressão e o tempo incontável que ele permaneceu ali, inebriando todo o meu campo de visão. "Junto de um bobo sempre tem outro bobo, o que ri", você disse. Sim, eu era a boba que só sabia rir. Sorrir, porque o teu sorriso me fazia feliz.
   Eu me perdi na tua voz de sono, pausada, grave e baixa. Me passaram pelo pensamento todas as vezes que eu já ouvi essa voz no pé do ouvido, tamanha proximidade. "Se você sabia sobre o que eu ia falar desde o começo, por que quis vir me ver?" "Porque se você me chamar, eu vou". Droga, por que diabos eu falei isso? Xinguei-me mentalmente mil vezes. Sua voz me eriçou os pelos desde sempre e isso estava longe de mudar. Eu encarava o nada para não ter que encarar todo o amor do mundo, que estava ali. "Então vem." E eu fui.
   Eu me perdi em você e em tudo o que você era para mim, física e moralmente. Seus braços fortes e suas veias aparentes, sua cor de pele, e suas mãos (pelas quais eu era fascinada), seu sorriso de criança, seu olhar curioso, seu toque, seu cheiro. Todas as circunstâncias, a paz que você sempre me passou, as gargalhadas que demos juntos, as indiretas, todo o clima peculiar, as borboletas no estômago, as horas perdidas, as lágrimas, os sorrisos, os conselhos, os elogios e os ensinamentos. Pode ser que você não considere nada disso. Pode ser que eu nunca chegue a representar para você um terço do que você representa para mim. Mas jamais colocarei em dúvidas que você foi o mais perto de sinceridade que eu consegui chegar.
   Eu me perdi desde o começo e nada mudou. Eu ainda estou perdida. Perdidamente apaixonada por você.


Vitória

domingo, setembro 14, 2014

Domingo ensolarado

   Hoje o domingo está ensolarado. A depressão, porém, não me acometeu. Eu, que por tanto tempo comentei que só sabíamos fazer chover, hoje estou mais do que feliz com o sol. Acontece que hoje, pouco tempo após eu ter perdido todas as esperanças, você apareceu. Deu-me todos os sinais pelos quais clamei a Deus por todos esses anos. Disse-me todas as palavras que eu sempre quis ouvir de você. Acariciou-me as mãos e beijou-me o pescoço. Você veio a mim, por pura vontade, e abriu o coração. Da forma mais terna e cativante que você poderia ter feito. Da forma como só você sabe fazer. Entre sorrisos e olhares curiosos. Entre assuntos diversos e corações acelerados. Nós fomos nós, como há muito tempo não éramos. O calor, pela primeira vez, nos embalou, e aumentou ainda mais a esfera de desejo que pairava em nossa volta. O desejo, entretanto, não era tudo o que nos cercava. A atração era mais do que física. Era química. Biologia. Sempre foi. Teus olhos, no sol, esverdeados. Teu sorriso indescritível. Eu senti tanta falta disso tudo. Eu sonhei por tanto tempo com isso tudo. E você voltou. E talvez o tempo tenha trocado tudo de lugar. Talvez, apesar de nós permanecermos os mesmos, tudo em volta seja diferente. As pessoas, o convívio, a maturidade. Mas nós somos nós e hoje reconhecemos e relembramos isso. E eu, após tanto rodar, parei em você. Como sempre. Essa sensaçãozinha leve e inigualável voltou a habitar em mim, junto com todas as borboletas no estômago. Sensação que só você me fez, faz e fará sentir. E se faz sol, eu sei porquê. Tudo mudou, não? Somos nós mas somos novos. Vamos fazer diferente. E hoje, deixando de lado todo aqueles pingos gélidos, começamos a mudar o presente. Sem mais indiferença e maquiagem de sentimentos. Hoje o domingo está ensolarado. Assim como nós dois. 

domingo, agosto 31, 2014

Domingo

Domingos me lembram você. Por Deus, quem é tão vidrado em detalhes assim? Pois bem. Essa calmaria, essa música desnecessária ao fundo, a deliciosa obrigação de não fazer nada, as roupas de dormir, a ausência. Os domingos fazem peso em mim. Todo o pesar do passado virou lembrança mas a sensação de domingo é a mesma. É você. Não o que você é hoje, mas o que foi no passado. O que eu fui no passado. E que nós tentamos (e falhamos) ser. E a saudade? Ah, ela está no fundo, bem no fundo de mim. Não sinto há um tempo. Estou bem assim. E você? Dava um mundo para saber. Mas hoje é domingo. E eu sinto você.

Vitória

sábado, julho 26, 2014

Me, myself and I

“Your time is limited, don’t waste it living someone else’s life. Don’t be trapped by dogma, which is living the result of other people’s thinking. Don’t let the noise of other’s opinion drown your own inner voice. And most important, have the courage to follow your heart and intuition, they somehow already know what you truly want to become. Everything else is secondary.” – Steve Jobs

terça-feira, julho 15, 2014

Espelho da alma

   Ela era louca, mas não de um jeito ruim. Tinha estranhas fixações e paranoias, era apegada a detalhes excêntricos e obcecada em trejeitos anormais. Há horas admirava os olhos dele. Achava genial o modo como mudavam de cor em determinados momentos, como transpareciam tudo o que se passava nos pensamentos dele e ele nem percebia. Chovia lá fora, mas a brisa fria que adentrava pela janela não os acometia, visto que estavam abraçados e embalados por três cobertores.
- Não cansa de me olhar, senhorita? - Ele sussurrou. A calmaria estampava seu rosto.
- Nunca. - Ela sorriu, seguida por ele. - Faria isso pela eternidade, se pudesse fazer pausas esporádicas para comer.
   Ele gargalhou. Ela fechou os olhos para apenas ouví-lo. Sua risada era como música, como calmante. Quando voltou a si, fitou sua boca. Aveludada, macia, desejável. E o beijou. O barulho da chuva fez-se mais intenso e o calor entre os dois aumentou. Enquanto ele beijava seu pescoço, ela sentia as mãos dele, geladas, percorrerem sua perna, quadril, cintura, seios... E sorriu.
   Em momentos como esse, todas as dúvidas se dissipavam, e tudo era certeza. Quando ele a tocava, ela podia jurar que ia ao céu. Tentava manter os olhos abertos, para admirar o contraste do quarto quase escuro com a pele dele, excessivamente branca como a neve... Mas não podia, visto que o prazer a fazia sair de si. No final de tudo, voltava para os olhos.
   E derretia-se por dentro. Amava (sim, ela A-M-A-V-A, com toda sua força) a mania que ele tinha de fitar o teto, de suspirar toda hora, de não saber o que fazer com as mãos. Achava curioso o modo como o coração dele o denunciava e trocava o ritmo de suas batidas de acordo com o pensamento que ele tinha. Sentia-se única quando ele mostrava-se preocupado com ela, sentia-se a melhor garota do mundo quando era amparada por ele. E gostava do modo como eles eram iguais quando não queriam pensar no futuro, quando mantinham-se juntos apesar da distância física, como o amava.
   Agora era ele quem a olhava.
- Eu amo seus olhos, sabia? - Ele disse, sério.
- Não, eu que amo os seus - Ela sorriu.
- Por quê?
- Porque eles são o espelho da sua alma. Eles falam comigo.
- Ah, é? - Ele gargalhou. - O que minha alma está falando agora?
- Tá sorrindo.
- Não tão errado. Mas minha alma está dizendo outra coisa. - Disse ele, enquanto acariciava as têmporas dela.
- O que diz a sua alma? - Ela perguntou, curiosa.
- Diz que eu te amo. Muito.
   Ele sorriu e a beijou. Ela era louca, mas não de um jeito ruim. Louca por ele. Assim como ele, que era louco por ela.

Vitória

segunda-feira, junho 23, 2014


"Love's just chilling, you know? Kicking it with somebody, talking, making mad stupid jokes. And, like, not even wanting to go to sleep, because then you might be without them for a minute. And you don't want that."

domingo, maio 25, 2014

I'm sure you can free my heart

Eu encarava o pote de sorvete só pra não te olhar nos olhos, porque eu sabia que você me observava com um sorriso bobo no rosto. Ali, no silêncio, "domingávamos" e eu tentava fingir que não era a menina mais feliz do mundo. Meu rosto queimava de vergonha - eu era apenas uma garota começando a descobrir a vida. Você era a melhor parte de mim. Fazia sol e teus olhos castanhos tornaram-se verdes. Tuas bochechas rosadas me chamavam a atenção. Eu só queria aquilo pra sempre. O sorvete derreteu. Você sorriu e eu desviei o assunto. Você insistia em mim.
Depois disso, só fizemos chover.
E eu me lembro como se fosse ontem. Das borboletas no estômago, da espera que pareceu eterna. Do seu sorriso e do brilho que seus olhos tinham à luz da lua. Do relógio que gritava o fim da noite. Do desejo de permanecer. Da saída receosa. Do seu sorriso pedindo pra eu ficar. E de ficar. E do beijo demorado. E do seu cheiro na minha roupa.
Mais chuva.
O verde das árvores era apagado, o frio eriçava os pelos, o seu hálito me esquentava a nuca. E eu lembro de cada momento em que seus olhos fitaram os meus, naquele dia. Das duas horas que pareceram dois segundos e do quanto eu daria para que o tempo tivesse parado e eu estivesse lá até hoje.
Chuva.
E a música, as pessoas, a festa. Dançávamos e você parecia estar em outro mundo. O seu sorriso é tão lindo. Os olhos semicerrados, o sono e a obrigação de permanecermos ali. Você estava melhor do que nunca. E eu não conseguia esconder isso. O beijo inesperado no fim da noite.
Foram meses chuvosos. Meses preguiçosos. De conversas despretensiosas e divagações longínquas. Você foi e ainda é minha inspiração. E depois de todo aquele tempo me aquecendo e protegendo do frio, iluminando os meus dias com aquele sorriso inocente, fazendo aquelas brincadeiras bobas sobre o cotidiano... O sol apareceu.
Eu não queria e nem quero uma vida ao seu lado. Não queria as obrigações, não queria a burocracia, não queria o protocolo. Podia ser tudo só nosso. Eu não ia ligar. Tudo bem se fizesse sol por dias seguidos contanto que eu soubesse que no fim de semana o tempo iria nublar. Que a calmaria tomaria conta de mim.
E que nós dois só faríamos chover.

Vitória

sexta-feira, maio 09, 2014

Dear nameless,

Três anos. Para ser sincera, não sei porque escrevo essa carta, mas tenho a certeza de que ela será redigida da forma mais simples possível em memória ao que nós fomos, somos e seremos. Em memória aos bons tempos, aos anos de sofrimento e ao sentimento que ainda vive em mim.
Sim, ele vive. Durante esses três anos, lutei incessantemente para que o que sinto por você morresse. Procurei em outros braços aquela sensação de missão cumprida que eu tinha ao ver o fim do dia ao seu lado. Livrei-me de todos os objetos que me lembravam você e tratei de espantar todos aqueles pensamentos traziam a imagem do seu sorriso ao meu pensamento. E, por um tempo, realmente achei que toda essa privação tinha funcionado.
E aí eu te vi. Me privar de te ver por tanto tempo só fez com que todas aquelas borboletas no estômago voltassem em maior número quando aconteceu. Te vi sorrindo de longe, o solzinho fraco da manhã deixando teus olhos esverdeados, olhando pro lado e andando despreocupado. E todo aquele charme inebriou a minha razão. As pernas bambas, o coração acelerado, sem saber o que fazer. E você passou.
Foi quando eu percebi que o tempo foi inútil e que me proibir de pensar em você só fez com que sua essência grudasse mais em mim. E que quanto mais forte ficava o sentimento, mais tempo passava, mais eu me frustrava por não poder ser quem eu queria ser e menos eu sabia externar isso.
E eu percebo porque tudo deu errado. Tantos fatores. Nossas idades, as pessoas de fora, seus princípios e meus medos. Tudo contribuiu para que todos os momentos fossem menores do que a realidade e nós deixássemos de ser "nós". Dói exageradamente saber que a pessoa que você mais ama não pode ser sua.
Eu queria que você soubesse de tanta coisa. Nem as palavras mais bonitas e bem colocadas descreveriam tudo o que eu já quis te dizer, o que eu já quis fazer, o que nós poderíamos ser e como nós poderíamos fazer dar certo.
Tá tudo tão bagunçado pra mim.
Às vezes eu me pego imaginando como seria se tudo fosse diferente. Sem amores antigos, dores passadas, histórias mal resolvidas... Nós teríamos todo o tempo do mundo!
Mas talvez todas as turbulências tenham sido importantes para que eu me tornasse quem sou hoje. A maturidade me permite afirmar com propriedade que é você quem eu quero. Que mesmo depois de todo esse tempo e todas essas tempestades, eu ainda sou sua. E que sempre serei.
Passado todo esse tempo eu me lembro exatamente de como eu senti. De como eu era a garota mais feliz do mundo (e a mais nervosa também) quando eu sabia que iria te ver. De como meu pensamento de menina passava horas fazendo cenas de um futuro impossível onde você era somente meu e nada além disso.
E é engraçado o modo como a sensação gostosa de paisagem amarelada ressurge em mim todas as vezes que eu penso em você. Como vibram as minhas têmporas todas as vezes em que eu me lembro de tudo o que vivemos juntos. Das suas piadas, opiniões conservadoras...
E você voltou.
Não do modo como eu esperava, mas você está novamente em minha vida e parece colocar-se nela de modo mais intenso do que nunca. Por mais que circunstâncias ainda mais sérias nos impeçam de "sermos nós", você tornou-se presente. E está aqui.
Eu, mulher feita, pensamentos formados e vida em construção. Eu, que ainda me sinto criança quando conversamos, que fico sorrindo sozinha por sua causa, que percebo todos os dias o quanto você é insubstituível. Logo eu.
E eu nem sei como e quando terminar essa carta, mas talvez o ensejo seja esse, já que está tudo tão fora de nexo. Eu só queria que você soubesse um pouquinho do que sou quando o assunto é você. E esse é meu escrito mais amador e ainda assim um dos mais sinceros. Cuida bem dele?

Vitória

quinta-feira, março 13, 2014

Turbilhão

Toda essa ânsia vem da agonia interior desse presente dolorido que nos arranha a face com responsabilidades novas todos os dias, dessa realidade pungente que nos pressiona tão fortemente. Mas a vontade bate de frente com o medo. Há um indiscutível e contraditório medo de fracassar. De ver que as escolhas foram equivocadas, da falta de capacidade, da queda. E esse dualismo que tem suas duas facetas batalhando todos os dias, no pensamento. “Mas e se...?”. E como dói! A angústia de nada saber sobre seu futuro, ao passo de que não se tem controle do próprio presente! A necessidade de crescer e provar tantas coisas ao mundo. A vontade irrefreável de voltar no tempo e esquecer todas as responsabilidades e escolhas. E as partes da vida. O amor, o intelecto, as relações. Estamos rodeados de gente, mas sem ninguém que entenda completamente esse turbilhão de pensamentos.

Vitória

segunda-feira, março 03, 2014

American Psycho

"I have all the characteristics of a human being: blood, flesh, skin, hair; but not a single, clear, identifiable emotion, except for greed and disgust. Something horrible is happening inside of me and I don't know why. My nightly bloodlust has overflown into my days. I feel lethal, on the verge of frenzy. I think my mask of sanity is about to slip." 

"There is an idea of a Patrick Bateman; some kind of abstraction. But there is no real me: only an entity, something illusory. And though I can hide my cold gaze, and you can shake my hand and feel flesh gripping yours and maybe you can even sense our lifestyles are probably comparable... I simply am not there." 

"There are no more barriers to cross. All I have in common with the uncontrollable and the insane, the vicious and the evil, all the mayhem I have caused and my utter indifference toward it I have now surpassed. My pain is constant and sharp, and I do not hope for a better world for anyone. In fact, I want my pain to be inflicted on others. I want no one to escape. But even after admitting this, there is no catharsis; my punishment continues to elude me, and I gain no deeper knowledge of myself. No new knowledge can be extracted from my telling. This confession has meant nothing."

Patrick Bateman, you unveiled me. 

sábado, fevereiro 08, 2014

De volta

   Há tantas coisas que eu queria te dizer. Essas coisas, porém, arranham-me a garganta e são engolidas por causa de meu orgulho. Por vezes, os prantos impediram-me de te olhar nos olhos e muitos dos sorrisos que te dirigi nos últimos tempos foram falsos. E eu desejei, por muito tempo, não ter que dar-te palavras ou ser obrigada a estar na tua presença.
   Mas teu cheiro inebriou-me, teu toque aveludado e despretensioso chegou a mim e descansei meus olhos nos teus. Tu estás de volta. E todo esse tempo que levei para colocar minha vida no lugar foi em vão. Toda a certeza que eu tinha de que tu estavas fora da minha mente se esvaiu junto com a organização de meus pensamentos. Agora, perturbada, luto para não ter que demonstrar que, no fundo, nunca deixei de te amar.
   Percebo agora que desde sempre coisas ficaram presas em mim. Momentos, palavras, mágoas. E que eu queria despejar tudo em cima de ti repentinamente para depois morrer de remorso. Que eu queria poder olhar nos teus olhos sem ter de esconder a tristeza que me acomete quando lembro o que representastes para mim. Que eu pudesse admitir que tudo o que aconteceu ficou para trás e jamais voltará.
   E tudo está de cabeça para baixo de novo. E não me adianta tentar escrever sobre tudo o que senti quando fostes embora. Não adianta lembrar-me o quanto sofri e como a ferida demorou para cicatrizar. Só me lembro de como foi difícil olhar-te e ver-te feliz (sem mim), procurar em outros braços a mesma sensação que eu só tinha nos teus (e não achar).
   Tu estás de volta e, como sempre, balançou-me de um modo que só tu sabes. Tirou-me do chão e todas aquelas cartas jamais entregues parecem fazer parte do presente novamente. E eu sei que vai dar errado. E eu não me importo. Eu só quero estar contigo o máximo que eu puder.
   Quantas críticas já não ouvi e ainda ouvirei? Mas diga-me, qual é o apaixonado que escuta outras vozes senão a do próprio coração? Qual é o hipnotizado que presta atenção em alguém além do hipnotizador? Que sou eu, senão sua para sempre?
   Não é burrice. É amor. Amor desmedido que corre em minhas veias desde que me entendo por gente. Que atender-te-á independente do tempo e da situação. Que cuidará de ti quando mais precisar e será calmaria no meio da tempestade quando necessário for.
   Tu estás de volta. E eu também.

Vitória

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Dúvidas, céu e nostalgia

   Eis que você retorna às minhas inspirações. Não por mérito mas sim por consideração. Apesar de todos os aspectos ruins de "nós", você deixou algumas boas lembranças e um sentimento gostoso de nostalgia em mim. Irônico dizer, após tudo o que passou, que você ter estado em minha vida (ainda que apenas de passagem) foi bom.
   Você era a poesia matutina de um sol alaranjado que escalava lentamente o céu. Desvendou mistérios desconhecidos por todos, destruiu barreiras outrora inabaláveis e tornou-me pessoa nova. Brincou com meus cabelos, admirou meus olhos, sorriu como incentivo e foi distração.
   Você foi o mais próximo que eu já cheguei do amor.
   E agora, admirando o pôr-do-sol, consigo enxergar a importância do amanhecer, da queda, do luto. Aprendi que a dor era pungente mas curável. Que o tempo não cessa mas suaviza as lembranças. E que as lágrimas secam independente do que houver.
   Talvez eu ainda não esteja completamente moldada. Talvez você ainda se lembre de mim quando olha para o céu. Talvez nossos caminhos ainda se cruzem. Talvez nada disso tenha realmente acabado. Talvez nossas têmporas ainda vibrem o amor. Quem sabe?
   A paisagem ganhou ares vivos novamente e outros amores já me traçaram os pensamentos. Mas você ainda está aqui guardado e daqui jamais sairá. Você foi único e é imutável, pois as lembranças que despertamos em alguém nos eterniza da forma mais doce e sincera que pode existir. As lembranças são o que eu tenho de melhor sobre você.

Vitória

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Aniversário

   Estou aqui. Como estive em todos os anos desde que me lembro. Talvez não da forma como eu estou acostumada, mas talvez você já esteja. Me sobra o orgulho e me falta a coragem de ir até você e dizer todas as palavras que lutam brutalmente em minha garganta. Elas tentam sair mas vou abafá-las mais uma vez e guardar todos esses sentimentos contraditórios dentro de mim.
   Mas não se assuste! Não é a primeira vez que acontece. É uma pena que você não esteja por perto para assistir toda essa batalha interna que venho enfrentando. Mas talvez seja bom para você. Para que você não seja afetado por todo esse desequilíbrio mental que eu poderia exalar. E, talvez por culpa desse desequilíbrio, somada a um punhado de orgulho (o orgulho ruim, por enquanto) e um pouco de remorso, é que essas palavras ficarão aqui, onde só eu possa enxergar.
   Aproveite o seu dia. Hoje todas as pessoas que te amam estarão por perto tentando fazer com que em cada segundo você esteja sorrindo por um motivo diferente. Elas se esforçarão de verdade para que esse seja o seu melhor aniversário (e repetirão isso no ano seguinte e infinitamente). Faça-as sentir que conseguiram. Divirta-se ao máximo e sinta aquele friozinho na barriga ao perceber que é tão amado.
   Pense em como você cresceu e se esforçou para chegar até aqui. No modo em que todas as coisas mudaram drasticamente e em como você parece outra pessoa agora. Nas idas e vindas que a vida dá. Nos momentos em que você se sentiu sozinho e nos que viu que a vida é maravilhosa. Pense em todos os seus sonhos cada vez mais próximos de você! Em como todo aquele futuro que você tanto almejou está cada vez mais perto.
   Renove as lembranças e faça com que esse dia fique na sua memória. Esqueça todas as coisas ruins e as deixe ir (pois elas foram cruciais para que você se tornasse o que é hoje). E agradeça. Agradeça muito ao mundo por ele ser como é. Por ter permitido que a sua vida fosse tão singular e que você se sentisse tão completo como demonstra estar.
   No final das contas, é isso que eu desejo para você. Você merece sentir tudo o que eu disse "aqui em cima". Merece de verdade olhar para os lados, esticar os braços e sentir-se infinito. Queria poder estar com você. Mas estou. Pois também tive minha parcela de contribuição para o que você é hoje. E eu me orgulho disso (o orgulho bom, eu digo). Tudo de bom para você e feliz aniversário.

Vitória

terça-feira, janeiro 07, 2014

O monólogo de R.B.

   Eis aqui o devaneio de uma mente aventureira, recheada de pensamentos trapezistas e agitados. Para lá e para cá. Na verdade, esses devaneios estão mais para um registro, já que amanhã ou depois eu talvez possa mudar de ideia bruscamente e criar coragem ou simplesmente desistir. Mas estou tão cheio de dúvidas agora...
   Penso agora em como a conheço desde sempre. Em como, desde que me entendo por gente, ela está presente na minha vida e jamais deu sinais de que um dia iria embora, como parece dar agora. Em todas as minhas lembranças, desde as mais tristes às mais extasiantes, ela está presente com sua beleza não convencional para me amparar.
   E é isso que ela é. A melhor pessoa do mundo (para mim) em todos os aspectos. Ela tem uma inteligência devastadora e pode enxergar a lógica até onde não existe - o que é extremamente ruim para mim, que além de ser exatamente o oposto nesse sentido, tenho como desafio fazê-la sentir ao invés de entender tudo isso o que me perturba a mente agora. E ela vai querer entender. E eu terei de dizê-la que o amor não se entende, apenas se sente -. Ela tem uma beleza não convencional e isso me deixa muito satisfeito. Digo, ela não é aquele tipo de garota toda cheia de maquiagem e que se preocupa o tempo inteiro com coisas aparentes. Ela é bonita nos sorrisos, nos esboços de preocupação, quando presta atenção na aula, quando está comendo. Ela é linda nos momentos - e eu já vi tantos! Ela tem um espirro engraçado que chama a atenção de todos e uma risada que muda a todo instante.
   Ontem nos olhamos. Em tantos anos, nunca um momento entre nós foi tão terno. Ela estava distraída e, sem querer, passou os olhos por mim. E parou. E eu a estava olhando. E assim ficamos por alguns minutos, os olhos nos olhos. E meu coração descompassou, minhas pernas bambearam. Eu só queria tê-la para sempre, nós meus olhos, daquela forma. Parecia que tudo tinha contribuído para que aquele momento fosse especial. O sol escondeu-se atrás das nuvens e o clima ficou perfeito (como eu e ela gostamos): o céu ficou cinzento e a brisa mostrou-se, acariciando nossos rostos. Todo o barulho que não vinha de nós cessou e só os nossos corações eram ouvidos. Será que ela também se sentiu assim? Talvez não, porque logo abaixou o olhar. E os barulhos voltaram, o sol saiu novamente e o vento cessou.
   Insisto em descrever momentos rápidos como se durassem a eternidade. Mas eu realmente queria que fossem eternos, já que foram especiais. Estou devaneando tanto. Mas não posso evitar. É impossível não pensar na possibilidade de ela estar devaneando sobre mim agora. Pensando no que foram aqueles escassos minutos em que nossos olhares se cruzaram. Se significaram algo para mim também.
   Eu, R.B., estava com todos eles naquele dia. Falo do dia em que toda essa tempestade interna começou. Estávamos num pileque colossal e ríamos sem parar. Mas não pense que tudo começou porque eu estava fora de mim. Não. Foi gradual e imperceptível, mas naquele dia a certeza veio a mim. Quando ela adormeceu em meus braços... Aquele era o meu lugar! E nada me tiraria dali. Exceto tudo. E ela acordou. E pediu desculpas por estar ali. Tudo o que eu queria era dizer que estava tudo bem. Mas não disse.
   Não disse.
   Quando ela foi embora, olhei o espelho. Não enxergava a mim e sim a minha alma pedindo a presença dela. Pois foi a primeira vez em que eu senti que estava no lugar certo, com a pessoa certa (e eu me sentia infinito). E eu poderia dizer isso a ela, se ela estivesse ali. "Você faz com que eu me sinta infinito. Não vá embora". Mas ela não estava.
   E como dizer? Eu a vi tantas vezes após esse dia e parece que quanto mais o tempo passa, menos infinito eu passo a ser. E como entender? Como fazê-la precisar de mim? Deleitar-nos-emos em sorrisos e prantearemos juntos. A partir dali. A partir do momento em que minha boca se abrisse e vociferasse tudo o que me acomete os pensamentos desde aquele dia. Mas não. Só sei fazer silêncio e observá-la. E tremer quando nossos olhares se cruzam. E fingir que nada aconteceu.
   Aquele olhar ainda habita minha mente. Suas frases polidas ainda ecoam em meus ouvidos. Seu toque despretensioso ainda me eriça os pelos - durante as noites de sono (sonho).
   Lá se vão noites em claro e dias improdutivos. Lá se vão momentos eternos e matutações de como dizê-la. Tê-la. Sabê-la. E eu não sei!
   Escurece em mim e o fim está por perto. Meu corpo clama pelo dela,meu suor quer ser seu aquecedor de noites frias. E por onde andará agora? O que estará fazendo? Pensará em alguém? Sonhará comigo? Por favor! Por favor...

Vitória

quarta-feira, janeiro 01, 2014

Attraversiamo.

Há um turbilhão de pensamentos distintos habitando minha mente agora. No momento, não há a preocupação com estrutura textual alguma, só com a habilidade de passar tudo o que sinto para algum lugar. Registrar.
Está chegando a hora. Cada vez que olho para o céu, posso sentir a liberdade chegando cada vez mais perto de mim. Posso sentir uma conexão inexplicável entre a imensidão do mundo e a imensidão do meu ser. Posso ver-me conhecendo todos os cantos da sensação.
Não é nada pessoal. Não há mágoas, ódio, rancor. Apenas existe um destino traçado, o qual estou fadada a seguir independentemente de qualquer laço amoroso. A vida exige tantas escolhas e a mais difícil que terei de enfrentar está tão perto....
Posso ver os dias passando e o tremor tomando cada vez mais o meu campo de visão. O tremor vem do medo e o medo vem do desconhecido. Para enfrentá-lo, preciso conhecer. E só.
E é isso. Para conseguir o que eu quero, devo querer tão fortemente que deve superar a necessidade de respirar. Deve superar qualquer vontade incontrolável, qualquer amor delirante, qualquer vibração nas têmporas que já existiu.
Respirar e sentir o peso esvair-se.
Attraversiamo.

Vit

segunda-feira, novembro 25, 2013

Imensidão

   É isso. Como uma fuga. Gosto de ficar aqui existindo enquanto planejo como será minha vida quando esse inferno acabar. Como vai ser sorrir desmedidamente e de forma sincera, ter a diversão de viver e não me preocupar com nada e poder dizer tudo o que eu quiser sem medo de machucar alguém. De ser livre para pensar e agir, de não ter poréns ou prisões. Vai parecer tão fácil. Minha única missão vai ser a felicidade. Desfrutarei de todos os meus esforços e a minha ocupação será ver meus sonhos realizados. O mundo será meu e em todos os cantos eu me sentirei em casa. Porque essa é a verdade. Eu sou do mundo e já nasci assim. Fui moldada aos olhos da imensidão. Meus pés são feitos para vagar sem rumo e meus olhos para desbravar o desconhecido. A música vai embalar meu corpo e vou jogar todo o peso do passado nos momentos bons que ainda virão. As lágrimas que me arranham o rosto agora estarão presentes em todos os rios e mares que irei contemplar e registrar. Toda essa ira vai estar nas ondas e na incerteza da direção. A falta de palavras se manifestará diante apenas da beleza natural e os sonhos serão nada mais que metas realizáveis. E tudo vai ser esquecido. E vou me sentir completa. Para sempre.

Vit

quinta-feira, novembro 21, 2013

Das lembranças

"Nós, jovens, inconsequentes, tudo e tanto pela frente. Só queríamos nos divertir, compartilhar bons momentos, que sem pedirmos se tornaram eternos. Medo, paixões, aventura, comédia, asco, tudo a flor da pele Em um ambiente afro e paradisíaco fizemos nossa história. Os ritos do cotidiano ganharam um brilho de segredo e de sagrado."

Espero, de coração, poder um dia descrever cada fino detalhe daquelas férias memoráveis. A junção de tudo o que representou pra mim e para os que comigo estavam. Cada sílaba e delírio. Espero, de coração, poder falar sobre, já que é impossível reviver. E que venham outros, milhares, milhões, infinitos verões tão bons quanto aquele. Que sejam inesquecíveis e que eu diga, batendo a língua no céu da boca algumas vezes: "Ah, quem não viveu um verão inesquecível não sabe o que está esquecendo..."

Vitória

domingo, setembro 29, 2013

Carousel

"There are days that take too long and it's those days I wish I had you right here..." 
   Chove lá fora. Você veio como uma tempestade furiosa dentro de mim. Está tudo confuso. Passou-se tanto tempo, tudo mudou tão rápido e tornou-se tão inconstante. Você se foi. Jogou todas as lembranças e momentos fora, esqueceu-se das palavras ditas com tanta sinceridade. Mudamos. Eu e você.
   Dói continuar amando alguém que me fez tão mal. Alguém que despedaçou meu coração de forma tão indiferente e cruel. Alguém que disse as mais terríveis palavras sobre mim. Alguém que se foi mesmo depois de prometer que permaneceria ao meu lado para sempre.
   Parece que foi em outra vida que você era tudo pra mim (Sem qualquer resquício de exagero ou poesia forçada). Que mostrei-te todas as facetas do abismo que eu sou, compartilhei com você todos os meus segredos, fragilidades e medos. Que vagamos incansavelmente por caminhos desconhecidos, sem medo e por simples confiança por estarmos um com o outro.
   Você esteve lá. Nas primeiras quedas, ajudando-me a levantar e seguir em frente. Nas primeiras conquistas, com o sorriso mais sincero e as palavras mais ternas. Na calmaria, nas gargalhadas, nos prantos, nos altos e baixos, nas normalidades. Sem reclamar da minha aparente indiferença por saber que os sentimentos eram demonstrados em atos e não em palavras.
   Foi de repente e até hoje não sei descrever ao certo como você se foi. A irmandade tomou traços de desconhecimento. Minha indiferença passou a irritar a poesia gritante que existia em você. Outras pessoas, essas sim, souberam demonstrar a importância que você tinha para elas. Palavras cheias de ódio e impulso foram ditas. Uma, duas, três vezes. Lágrimas, olhares, momentos. Os piores. Idas e voltas, altos e baixos e por fim, cessaram caminhos.
   Do modo mais terrível você saiu da minha vida e não demonstrou vontade de voltar. Nunca mais medos compartilhados. Nunca mais sorrisos sinceros. Nunca mais calmaria completa. O maior irmão e a pessoa mais inocente das minhas memórias tornou-se apenas um desconhecido.
   Ainda é difícil para mim escrever sobre você. Falar de você. Lembrar de tudo. Dói. Tudo mudou e nem parece que faz tanto tempo. Fico extremamente feliz ao ver que você está seguindo seus sonhos como sempre me disse que faria. O que nos separou? A vida, os desencontros, as decepções, a incerteza de que nada volta a ser como antes?
   Chove lá fora. Resta ainda a nostalgia.

I'm getting lonely, I'm sick of waiting here for you, I'm getting lonely, please come home 'cause I want to be with you...

Vitória.

terça-feira, julho 23, 2013

   E esse maldito protocolo social cheio das facetas que me seca a garganta e me deixa nesse ciclo vicioso de vagarosidade forçada, de "Saudades de você" "Eu também..." "..." e o encontro que nunca chega e a nostalgia de um dia perfeito e todo o papo furado cheio de supressão dos reais sentimentos e vontades... Cansa-me tanto mascarar o "queria ter passado o dia cuidando de você" com um "melhoras, vê se vai no médico" e acabar afogando um "queria você aqui" com um "dorme bem" e só... O tempo que não passa, o sabor que nunca chega, essa agonia que não finda. Palavras tão mal-ditas... Tão malditas.

Vitória

sábado, junho 22, 2013

Delirante

   Quis voar o mais alto possível para que a queda fosse impossível de se cogitar. Voar de modo distante, para que os gritos e clamores não pudessem ser ouvidos. Voar livremente, para que as lembranças e mágoas não tomassem seu campo de visão e a fizessem querer descer. Ah, o querer. Ela o tinha de sobra. O anseio do voo era irreparável, inadiável, delirante.
   As repreensões soavam como pesados grilhões roçando-lhe a carne viva do tornozelo. Doía a prisão, a repressão, a omissão. Doía o pesar da respiração, as palavras ditas sem pensar, os gritos de liberdade abafados pelo mundo. A dor da falta de poder era pungente, lancinante, delirante.
   O mundo ilusório. Faz-nos vibrar as têmporas de amor, habitar com borboletas as entranhas, valorizar o patético. Faz-nos lutar diariamente por coisas que, se pararmos para pensar, têm a importância duvidosa. Faz-nos priorizar o inimaginável, renascer como fênix, viver blasfêmias. A decepção para com o mundo é inevitável, penosa, delirante.
   Carta de alforria. A felicidade proporcionada pela liberdade fê-la sorrir. Doce como chocolate quente nas manhãs de natal. Doce como o abraço sincero após a tempestade. Doce como um arco-íris no final de um túnel escuro. Doce como a sensação de vencer. Permitir-se viver por si só e apenas consigo era perfeito, inacreditável, delirante!
   Mas era o mundo e como tal, chicoteou-lhe a face após a bonança. Amargo como discussão no fim da noite. Amargo como querer e não poder. Amargo como sentir-se só e estar certo. Amargo como morrer. Ter o chão retirado dos pés após breve sensação de liberdade era taciturno, terrível. Delirante.

Vitória

sábado, abril 20, 2013

Verão nas mãos


   Era dia, mas apesar de todo o clarão que nos habitava o campo de visão, a noite urgia dentro de nós, sua ferocidade arranhando-nos o íntimo, gritando por liberdade. Fechamos a porta e apagamos as luzes - e que metáfora!, a noite invadiu-nos e todo o restante de nós que ainda era dia, esvaiu-se.
   "Devora-me, incendeia-me, decifra-me." E assim a poesia se concretizou. Ir ao céu e voltar repetidamente não descreveria o que senti em todas as vezes que desvendou as interrogações que existiam no âmago de tudo o que já fui um dia. Perder-se era algo que outrora pareceu-me vago e que, naquele momento, fez todo o sentido.
   Todo o tempo do mundo e nenhum problema passando ao redor. Toda a utopia existente e nenhuma realidade para interromper. Toda a pele, toda a paixão, todo o querer. Nenhuma palavra, nenhum sentido, nenhum disfarce. E teu toque, apressado, sedento e um tanto quanto agressivo estremeceu-me o corpo. Meu inconsciente dividia-se entre te olhar e fechar os olhos para que toda a sensibilidade fugisse para o tato.
   Meu suor e tua força, teu desejo e minha vontade, se havia algo mais poético e corporal (ao mesmo tempo) no mundo, éramos nós. Nada a dizer, nada a pensar, tudo a fazer. A aproximação mais verdadeira, a forma mais suave de ser.
   Para quê encapsular-me, se tenho a ti? E para quê todo o escapismo, se minha fuga é você? E para quê todo o saudosismo se tudo em mim clama por mais e cada vez sempre?
   Fazia frio, mas o verão que tem nas mãos manteve-me aquecida (diria até queimando) por toda a extensão que era possível. Fechei os olhos para, mais uma vez, planar sobre todas as nuvens que já passaram pelos céus. Procurei-te. Arranhei-te. Preencheu-me.
   Pesavam-me os pulmões. Livre de qualquer interrogação ou convicção, deixei-me planar. À minha esquerda, teus olhos, tão intensos, fitavam-me. Curiosos, satisfeitos, incansáveis. Suspirei.

Vitória

sexta-feira, outubro 12, 2012

O lapidar

    Lá fora chove. Não muito, apenas alguns pinguinhos indecisos e que anunciam a chegada de uma grande tempestade. O céu fica cada vez mais escuro - não por motivos naturais - e o frio arrepia corações. Longe, bem longe, dedilha-se no piano alguma música esquecida pelo tempo, tendo outrora movido corações. Fora isso, mais nenhum barulho. Apenas o vazio sonoro. Vácuo. Abismo.
    A janela e ruídos incompletos. Do outro lado, a paisagem perde a cor e ganha ares diferentes. Deste lado, a folha em branco, desejosa por tornar-se esquálida, a nostalgia, o querer e o não poder. É nesse ambiente que, tristemente, devo quebrar promessas feitas em tempos de decepções e perguntas sem resposta.
    Antes de tudo, deixo claro que lutei por horas até sentar-me e deixar o lápis levar-me por caminhos desconhecidos. (A mente é um labirinto e cada mísera parte, por mais que repetida, é sempre desconhecida. Cada lembrança assume e ativa desejos diferentes, sendo sempre um deleite relembrá-la. Tudo isso não é comum e traz uma sensação distinta. Um tremor fraco na ponta dos dedos, um estalar diferente na língua.) Lutei para que sua imagem não me voltasse à mente. Mas fracassei.
    E como não fracassar quando lá fora o céu escuro contrastando com o verde apagado das árvores me lembra seus olhos? E que esse frio solitário fora outrora desculpa para chegar mais perto de você? E que nós só sabíamos fazer chover? Mas quantas histórias e momentos entrelaçados! Quantas viagens sem sair do lugar...
    E a bagunça que éramos, sem direito a joguinhos ou fingimentos. Era a verdade crua. Irrefutavelmente nua. Eram edredons jogados, livros inutilizados no parapeito da janela, canecas espalhadas pelo quarto. Era brincar com as mãos, com os lábios, com os olhos, com o corpo. Éramos nós.
   Não achei que desejaria teu corpo junto ao meu novamente. Mas, volta. Volta e faz chover arrepios, gargalhadas, faz chover a paixão delirante e desmedida. Faz iluminar o céu nublado com teu sorriso e tuas piadas sem graça. Faz abrir o sol em mim, como só você sabe. E só.

Vitória

domingo, outubro 07, 2012

Você


      Borboletas serelepes esvoaçaram dentro de mim, provocando um furacão trêmulo em meu estômago. Não parecia enjoo, mas tudo se revirava de uma forma desconcertante enquanto minhas mãos suavam deliradamente quentes dentro do bolso. As pernas bambeavam, valseando vagarosamente um compasso já conhecido. O som ao redor diminuiu até sumir. Um pingo de suor escorreu e foi de encontro ao chão.
      Espatifou-se.
      "Quando nada é cheio de você, tudo torna-se tão vazio... E quem me dera que toda a tremulação do mundo me acometesse sempre e por inteiro, sem espaço para suspiro ou divagação. É nesse momento em que desejo parar o tempo e ficar admirando sua serenidade. Inspiração. Você é o pranto da poetisa desiludida, a viagem estática da lunática, o coração pulsante de um amor solitário. É você e não será mais ninguém."
      Você. E eu forcei o pé no chão para conseguir continuar de pé. E revirei os olhos para respirar sem o furacão interno que joga tantas verdades diante de mim. "E eu preciso. Eu quero. Eu desejo. Espero. Você." "A bagunça que habita a minha mente dia após dia, o momento triste após a risada exagerada. A lembrança que aos poucos se apaga e luta para sair de mim."
      Um suspiro melancólico e demorado. Novamente forcei o pé no chão. Os sons começavam a voltar aos ouvidos: burburinhos, respirações alheias e acordes no piano. E meu coração. (Meu coração? Estava ouvindo meu coração?) Revirei os olhos, chacoalhei as mãos e foquei a atenção em um ponto morto qualquer, mas sempre à sua procura. As borboletas, aos poucos, sossegaram. As mãos esfriaram. As pernas recuperaram-se. Tudo tornou-se vazio novamente.
      E foi assim que me senti durante os dois segundos e meio em que seu olhar estacionou em mim.

Vitória

domingo, setembro 23, 2012

O monólogo de G.M.

     Eis aqui mais um desabafo insistentemente esquálido e desconexo de algo necessariamente inexistente. Eis mais um registro de fatos devaneantes e amores platônicos por desconhecidos. Eis aqui uma lírica existência falseante e um pouco de confusão inventada para pessoas que nunca trocaram olhares comigo ou sequer sabem meu nome do meio.
     Lutei para que ela não saísse de mim como se algum dia tivesse habitado meus mais íntimos pensamentos. Queria que ficasse por lá, ainda que soubesse que os nossos na verdade são do mundo, e que o mundo jamais devolve o que um dia foi nosso. Aliás, o mundo é demasiado injusto para importar-se com o que sentimos ou como dói a saudade.
     Sei apenas que a vi caminhando compassada e calmamente por um jardim enquanto eu passava de carro. Tirei calmamente o pé do acelerador para deleitar-me com sua delicadeza natural, o sol acariciando seu rosto e seu vestido florido dançando ao vento. Quase perdi-me na correnteza de seus olhos negros que mal importavam-se com minha presença. Brequei. Brequei o carro. A vida. O pensamento. A existência. Enquanto curvava o pescoço, meu coração curvava-se pela mais delirante febre clamando por uma atenção que não lhe foi concedida. Ela passou por mim sem sequer notar o buquê de rosas azuis que minhas mãos sonhavam em oferecê-la. E se foi.
     Mania essa minha de inventar uma existência para almas que já têm a sua. Devem existir por aí tantas almas inanimadas clamando por existir. Apenas existir. E eu estou aqui, tentando adivinhar o que a garota dos cabelos escorridos faz da vida ou pensa antes de dormir. Talvez essa seja apenas uma desculpa para esboçar uma personalidade ideal em meus padrões apaixonantes a uma beleza física que dita tudo o que meus sonhos sempre quiseram ter.
     Eu, G.M., dava mais um de meus passeios sem rumo pela cidade desinteressante em que vivia desde que me entendo por gente. Eu tinha tudo. Um apartamento bagunçado com uma falsa aparência de independência masculina. Um emprego que deveria esboçar o mínimo sorriso em um rosto que apenas fazia perguntas sem respostas. Um conversível vermelho que podia passar a falsa sensação de viver em uma década em que tudo era mais descolado. E uma barba por fazer que visionava um homem mais velho do que apontavam os quatro números em minha identidade. Menos o amor.
     Até ali.
     Olhava para dentro de minh'alma pelo espelho retrovisor. Via apenas a mim mesmo nos meus ataques egoístas de amor-próprio. Sorria daquele modo que as meninas deliravam ao ver-me passar. Acenava aos amigos, aos desconhecidos, aos inexistentes. Até que a vi. Como já dito, seu vestido esvoaçava em volta de seu corpo, vez ou outra mostrando curvas delineadas pelas quais meus olhos derraparam descaradamente. As pernas falsearam e meu pé saiu do acelerador. Eu já disse isso? Talvez. Mas em minha mente isso é tão nítido e importante... Poderia dizer isso ao mundo, aos gritos, os braços abertos. "Ei, eu vi a mulher que amo, não sei seu nome, número de telefone ou sequer seu seriado preferido, mas sei que gosta de vestidos floridos e dias ensolarados!"
     Será que ouve Beatles? Deleita-se em tardes frias com um livro ou um CD? Ou apenas adormece, dando descanso aos seus belos olhos, tão negros quanto a noite, tão iluminados quanto o dia... Será que chora por amor? Ou é um amor pelo qual prantos desmedidos são derramados todas as noites? Se não era, agora é. Perdi-a de vista, mas meu coração não. Fica apontando-me sua existência dia e noite, a cada sístole e diástole grita seu nome, sem nem o saber. Pede sua presença, para que valseie com seu coração, os dois formando uma dupla apaixonante e apaixonada.
     Seu caminhar despretensioso e sua inocência inócua ainda habitam minha mente. A mulher perfeita esboçada em meus íntimos luta para fazer-me feliz com sua existência pré-inventada. E meu coração, ah, meu coração. Ainda grita seu nome e pede sua presença a todo momento. Eu a quero. Eu a terei. Quando? Não sei. E essa esqualidez interna julga-me, gritando em meus ouvidos que não sou bom o bastante para tê-la por perto. Que o destino não quer.
     E o que é o destino para dizer-me se a terei? Sou amigo do acaso, peço sua ajuda todo instante. Passeio pela cidade, o rádio desligado, atento a todo sinal de inocência inócua da garota sem-nome. Olho para os lados, peço a Deus, nosso Pai, que leve seu caminho até o meu. Parece que minhas preces não são ouvidas. Lá se vão rios de dinheiro com gasolina e nada de minha menina aparecer.
     Escuridão interna e noturna, sonho com a garota todas as noites, sem exceção. Meu corpo clama pelo dela, meu suor quer ser seu aquecedor de noites frias. E por onde andará agora? O que estará fazendo?  Pensará em alguém? Sonhará comigo? Por favor! Por favor...


Vitória.

segunda-feira, junho 11, 2012

Juramento



E ter tudo o que alguém pode querer, porém incompleta e fraca. Ah, o amor. Quem me dera escrever poesias que fizessem o tempo voltar, que fizessem você nos meus braços novamente. Vejo tanta poesia no teu jeito, na tua voz e no teu olhar, que torna-se impossível produzir em palavras para que você também saiba.

Sou tão sensível que não dá pra ver e não se apaixonar. É o que você diz, ao menos. Mas, quem dera você visse, apaixonasse, pegasse, guardasse, bordasse na pele e não esquecesse mais. Quem dera fosse eterno e você gritasse para quem quisesse ouvir “Minha! Minha e de mais ninguém”.

E os teus cachinhos fechadinhos, que só não aumentam de tamanho porque você não deixa, eles podiam estar nos meus dedos de novo. Juro, daquele jeito só nosso, eu nunca mais iria desperdiçar essa chance. Queria teu cheiro inebriante, uma lembrança.

Um sinal. Uma piscadela, um toque despretensioso, uma música, uma carta. Apenas um sinal de que você não se esqueceu e de que sente falta. Apenas uma demonstração de que eu fui alguém e que sempre terei um lugar dentro de você, seja lá onde for.

Mas e nem assim você quis tornar isso poético ou inesquecível. O olhar, o jeito, teu charme, outros olhos apaixonados já admiram, aqueles que você também demonstra admirar. E a poesia que você tanto amava? E eu não a consigo enxergar naqueles olhos. Diga-me, moreno, o que você viu naqueles olhos? Naquele jeito? Naquelas palavras? Se não foi amor, já não sei o que foi.

Ah, faz falta o tilintar do teu relógio ignorado, tentando chamar atenção aos tiques e taques. Faz falta o frio na barriga, borboleteando o estômago e deixando a face branca de tanto amor. O suor repentino. Os sussurros ao pé do ouvido. Vê se volta, manda um sinal ou me dá qualquer motivo pra continuar vendo poesia onde não tem. Dá sinal pro amor não morrer, pra primavera florescer e pra que em cada canto eu veja um lado bom.

Vitória

sexta-feira, junho 01, 2012

"Quem sabe a vida é não sonhar?"



Se é para ser sobre solércia, que o seja de uma vez. Buscarei dar sempre o melhor de mim, para que conquiste a melhor forma de conhecimento possível, a sabedoria. Peço a qualquer divindade que me faça algo diferente, não infindável fisicamente, mas que permaneça em muitas mentes por muito tempo. Tantas inspirações, tantas ideias, poucas formas de mostrar ao mundo. Quanto mais progresso, mais saudades do que já foi. Quanto mais pessoas conhecidas, maior é a dor ao ver que aqueles que eram tão iguais, agora não passam de meros estranhos. Forçam a intimidade de outrora, mas não é a mesma coisa. E quanto mais longe se vai, maior é a vontade de olhar para trás e relembrar os bons momentos.A cada dia mais pessoas nascem, tanta gente morre! "Aqueles que querem tua queda estarão ainda mais vorazes procurando um jeito de te jogar por terra e por meio disso fazerem sua própria vitória." Penso nisso todos os dias e cada vez que minha ficha cai, percebo o quão impiedoso e injusto é o mundo. Sei que nem sempre aqueles que me confortam estarão por perto para ceder um ombro amigo. Dou-me conta de que só tenho a mim mesma e assim será eternamente. Não se sabe do pensamento alheio, só se sabe do próprio pensamento. É necessário aprender a ser frio e impiedoso assim como o mundo é. Necessário entender que as pessoas não estarão pensando no seu bem a não ser que isso resulte no bem delas. E a infância fica para trás, a falsa ilusão de que o amor e a compreensão existem ficam junto com a infância e nos transmudam em seres sem brilhos nos olhos e sonhos impossíveis. E tudo o que sobra é tão gélido e sem emoção, tão sem explicação e momentâneo... E eu, aqui, tentando entender o motivo de tudo ser tão findável e falso.

Vitória.

domingo, agosto 28, 2011

Café e mirra.



Era como tomar o mais forte dos calmantes, depois de uma briga por um motivo bobo. Era como passar a tarde sentada numa cafeteria de esquina, tomando capuccino e esboçando poesias num guardanapo. Ou então tomar banho de chuva, depois de assistir ao seu filme preferido.
Aliás, tinha cheiro de café. Café e mirra, num só ambiente, misturados com uma eficiência inebriante. Chegaria a ser indescritível, se houvesse algo indescritível no mundo.
Era como cair. Tropeçar sem ver e mergulhar num poço sem fim. Elevar os braços para dar um toque poético no fato, e fechar os olhos para apenas sentir. E conseguir. Toda a serenidade possível presente numa única face, numa única feição. Todo o amor estampado num único gesto e sem outras intenções.
Deitar-se sobre a água gélida, sem eriçar os pêlos e apenas sorrir. Deixar lentamente de respirar, e permitir-se ir até as profundezas quase azuis daquele lugar tão único.
Assim era a morte.

Vitória Tavares

domingo, agosto 21, 2011

Têmporas


É uma situação efetivamente bela, e passa o dever de trazer diversas coisas à lembrança. Ninguém vive só com a própria linha de sombra, vive também com sua linha de luz. A luz se transforma em sombra, a sombra se transforma em luz.
Eis que ainda somos pessoas novas; não ainda uma só; mas já somos uma só, embora sejamos duas. Eu, porém, pareço triste, talvez esteja somente séria e comovida.
Cintila um brilhante no peito dele e uma flor branca, em meus cabelos, mas são brilhos desiguais. Resplende também o vinho. Vinho – este sim! Seja o vinho vida em outro homem; o homem – é amor – irradiai, mutuamente, a vossa vida.
Quantas palavras, quantos corações. “Acompanhar-vos-emos, iremos convosco pelos pórticos e depois, pelas ruas, andaremos juntos alguns passos, milhentos passos, com entusiasmo, sorriso sincero, até aqui, até aqui.” Juntos.
Mas aparecerão, depois, os veículos, a rua será um obstáculo, mas subiremos no automóvel – devemos, afinal, ficar sozinhos. Voltemo-nos para as estrelas, para o calor, para os sentimentos. Ah, como o homem deseja ser amado, como queremos estar perto um do outro.
Árvores, árvores, troncos altos e esguios, que escondem o cimo aos olhares e roubam dos olhos a lua distante, trezentos mil quilômetros, e são dois. E a lua se transforma num tambor que rufa no fundo dos olhos e dos corações.
O amor. Vibra o amor nas têmporas. O amor na inteligência se transmuda em pensamento e vontade: vontade minha de ser dele. Vontade dele de ser meu.
Entranho, porém necessário afastar-se, depois, um do outro. Porque o homem não consegue permanecer no outro para todo o sempre. E o homem não é tudo.
Como alcançá-lo?
Como ficar nele para sempre?
Como alcançar-me?
Como permanecer para sempre em mim?
Como obtê-lo, se o homem não consegue ficar no outro, se o homem – não é tudo?
O corpo... O pensamento corre pelo corpo, mas não encontra nele a satisfação. E também, para o amor, o corpo não é mais do que um meio. Procuremos um apoio em nossos corpos, enquanto existem, procuremos apoio para o nosso amor.

Vitória Tavares